- Luís Barrucho
- Da BBC News Brasil em Londres
- 8 agosto 2023
Atenção: a reportagem contém imagem que pode ser considerada sensível para alguns leitores.
Os macacos-prego Marcelinho e Marcelinha perderam os braços e estão condenados a viver para sempre em cativeiro. Em comum, foram eletrocutados e por muito pouco não perderam a vida.
Mas eles não são os únicos — na verdade, a realidade de animais silvestres que vivem na cidade do Rio de Janeiro é bem mais cruel.
Desde julho de 2022, o Instituto Vida Livre, ONG que trabalha na reabilitação e soltura de animais em situação de risco na capital fluminense, recebeu 35 animais silvestres eletrocutados na rede elétrica da Light, empresa privada de geração, distribuição, comercialização e soluções de energia elétrica no Rio de Janeiro.
Elas vivem na Mata Atlântica, o bioma mais ameaçado do Brasil e um dos dez mais do mundo e que possui uma lei própria de proteção (Lei 11.428), mas até hoje não dispõe de qualquer política de prevenção de acidentes ou para o socorro dos animais eletrocutados.
Desses 35 atendimentos, segundo o Instituto Vida Livre:
- 3 animais foram socorridos e reintroduzidos (1 macaco, 1 preguiça, 1 gambá)
- 1 macaco ainda está em tratamento para soltura
- 2 macacos (Marcelinho e Marcelinha) estão vivos, porém perderam seus braços e estarão condenados a viver em cativeiro
- 29 não aguentaram e já chegaram mortos ou morreram durante o tratamento.
Os casos geraram comoção nas redes sociais e foram postados e compartilhados por diversas instituições, celebridades e formadores de opinião.
Em entrevista à BBC News Brasil, o diretor do Instituto Vida Livre, Roched Seba, disse que “em todas as situações” tentou comunicar e solicitar o socorro da Light, mas “sem sucesso”.
A Light tem uma concessão há 118 anos no Rio de Janeiro, distribuindo energia dentro da Mata Atlântica, mas, segundo Seba, do Instituto Vida Livre, não se responsabiliza pelo socorro e tratamento de animais eletrocutados.
Procurada pela reportagem, a empresa afirmou que zela pela prevenção do “risco de eletrocussão de animais silvestres” e mencionou medidas como “planos cíclicos de poda de árvores, o que afasta os animais da rede elétrica”.
O socorro, quando é possível, é prestado gratuitamente por instituições como o Instituto Vida Livre e órgãos públicos.
“A Light também não tem um levantamento sobre as áreas de maior risco de acidentes com esses animais, com o objetivo de preveni-los. Mas o que mais me choca é que ela não se responsabiliza pelo tratamento desses animais. Todo o custo do tratamento que oferecemos sai do nosso bolso; vem de doações”, diz Seba.
Os casos estão sendo investigados agora pelo Ministério Público Federal, depois de serem denunciados à polícia e ao Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro.
Também mobilizaram a Câmara dos Deputados, onde tramita o PL 564/2023, de autoria do deputado federal Marcelo Queiroz (PP-RJ), que institui a Política de Prevenção de Acidentes Elétricos em Animais Silvestres para responsabilizar as concessionárias pela manutenção dos fios e tratamento dos animais.
Uma audiência pública para discutir a pauta está marcada para ocorrer em Brasília no dia 14 de setembro, segundo Queiroz.
Conitue a leitura em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cqq4xd9dy4ko


